
Endentendo a Química Transacional
Entendendo a Química Transacional: Como as fraturas existenciais influenciam as nossas relações
Quando falamos sobre relacionamentos humanos, frequentemente nos deparamos com a complexidade daquilo que chamamos de "Química Transacional". Essa química pode ser descrita como a atração ou repulsão que sentimos por outra pessoa, baseada em fatores que nem sempre são conscientes.
De onde vem a Química Transacional?
Uma forma interessante de compreender essa questão é a análise das fraturas existenciais, os quais são padrões distorcidos e disfuncionais de pensamentos, emoções e comportamentos desenvolvidos na infância, quando nossas necessidades emocionais básicas não são atendidas.
A ideia central é que, todos nós, durante a infância, temos necessidades emocionais básicas, como amor, aceitação, segurança, autonomia, etc. Quando essas necessidades não são atendidas, surge um vazio existencial. Esse vazio muitas vezes leva a pessoa a acreditar que há algo de errado com ela, originando o que chamamos de "crença nuclear".
Essas crenças, por sua vez, são baseadas na interpretação de que as necessidades não foram atendidas por algum defeito próprio. Por exemplo, uma pessoa que não teve suas necessidades de amor atendidas pode desenvolver a crença nuclear de que "não sou digno de amor".
À medida que crescemos, esse vazio existencial não desaparece. Ele se transforma em buscas existenciais que afetam significativamente nossas escolhas e decisões. Essas buscas podem ser conscientes ou inconscientes.
Em nossas relações interpessoais, essas buscas existenciais se manifestam como idealizações. Inconscientemente, cada pessoa olha para a outra buscando algo que preencha seu próprio vazio existencial.
Por exemplo, uma pessoa que tem uma crença nuclear de "não sou digno de amor" pode idealizar alguém que seja amoroso e atencioso, na esperança de que essa pessoa preencha seu vazio.
No entanto, essa busca é mais emocional do que racional, o que significa que o valor perseguido nunca será suficiente para suprir totalmente a falta interna (um buraco sem fundo).
Assim, a química entre as pessoas pode ser positiva ou negativa, dependendo do quanto cada uma delas está consciente de suas próprias buscas e de como elas influenciam a relação.
Quando uma das partes não percebe que não é possível suprir sua falta no outro, a química transacional pode começar a atrapalhar a relação.
Para ilustrar, voltemos ao exemplo da pessoa com a crença nuclear de "não sou digno de amor". Mesmo estabelecendo um relacionamento com alguém amoroso e atencioso, isso pode não ser suficiente. Sua percepção da realidade está distorcida por essa crença, o que pode resultar em uma relação frequentemente marcada por conflitos e ressentimentos.
Isso ocorre porque a pessoa com tal crença nuclear não conseguirá encontrar no outro o que ela está procurando. Ela continuará se sentindo inadequada e indesejada, e projetará essas emoções negativas na outra pessoa.
Na psicoterapia, observamos frequentemente um fenômeno interessante: pacientes tendem a idealizar figuras importantes em suas vidas, como pais, cônjuges, filhos e sócios. Essa idealização muitas vezes leva a um sentimento de estranhamento nas relações, especialmente quando percebem que essas pessoas não estão atendendo suas necessidades emocionais profundas.
É crucial lembrar que não conseguimos mudar os outros, e tentativas de controlá-los para satisfazer nossas próprias expectativas são fúteis. Almejar moldar os outros ao nosso bel-prazer, na esperança de que preencham nosso vazio existencial, é um caminho sem sucesso.
Cada indivíduo possui sua própria identidade e liberdade, e é dentro desse espectro amplo de individualidade que o respeito mútuo deve prevalecer.
Considerando isso, um exemplo comum é a interferência de pais na vida de filhos adultos, ou vice-versa. Em ambos os cenários, cria-se um tipo de emaranhamento relacional que pode ser prejudicial.
O desafio está em equilibrar o respeito pela individualidade alheia com a manutenção de limites saudáveis, evitando cair na armadilha da conivência ou do controle excessivo.
O reconhecimento dessas dinâmicas emocionais é fundamental para compreendermos melhor nossas interações humanas. Afinal, a química transacional, tão misteriosa e poderosa, pode ser desvendada através da compreensão profunda de nossas experiências emocionais mais primitivas.

Daltro Feil
Daltro Feil, Psicanalista, Filósofo, com formações em Filosofia Clínica, Terapia do Esquema, Terapia Cognitivo Processual, Terapia Focada na Felicidade e Análise Transacional. Especialização em Teoria Psicanalítica e Psicopedagogia. Autor de cinco livros e diretor do Instituto Psicanálise.
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