Sofrimento no Divã

Por Daltro Feil, Me.

De acordo com Carl Jung, não sou o que aconteceu comigo, sou quem decidi ser. Essa afirmação demonstra claramente a jornada de compreensão e superação dos traumas. Como é sabido, os traumas deixam profundas marcas no nosso psiquismo, influenciando nossa percepção de mundo e a qualidade das nossas relações. No entanto, nosso inimigo interno é bem mais frágil do imaginamos, pois se trata de apenas uma ideia fixada. Sem dúvida, com perseverança, é possível superar as nossas sombras e encontrar um sentido para a existência.

O trauma surge quando acontecimentos extraordinários, com potencial de dano, são interpretados como uma ameaça ao suprimento de necessidades emocionais básicas (aceitação, afeto, atenção, apego seguro, segurança, limites, etc). Crianças, em sua vulnerabilidade, tendem a assimilar a culpa e a responsabilidade por esses eventos, independentes de quais forem. Essa ideia de inadequação se torna a semente do trauma, que se perpetua na vida adulta e influencia profundamente nossa maneira de ser e agir.

A dor intensa dessa culpa leva o ego a criar defesas que, inicialmente, são protetivas, mas podem ser limitantes com o decorrer do tempo. Essas estratégias desesperadas não alteram a realidade externa, mas sim a percepção interna do indivíduo, permitindo que ele suporte a situação.

O perfeccionismo, por exemplo, é uma defesa que pode esconder uma profunda necessidade de aceitação, enquanto o negativismo pode ocultar o medo constante de ser ferido.

Dessa forma, as crenças centrais e as defesas se transformam em esquemas, programas mentais de interpretação da realidade. Esses, por sua vez, permanecem imersos nas profundezas do inconsciente, prontos para serem acionados por gatilhos provenientes da realidade. Trata-se de estressores que nos afetam diariamente. 

Os gatilhos atuam como um impulso que ativa os esquemas, estimulando a pessoa a pensar, sentir e agir conforme os padrões estabelecidos por eles, o que resulta numa lacuna entre a realidade objetiva e a subjetiva do indivíduo.

Esse fenômeno gera distorções do pesamento, distanciando a percepção do senso comum; produz paixões que nada mais são que emoções exageradas ou descontextualizadas, como depressão, inveja, vaidade, etc; além de modos, os quais são comportamentos disfuncionais padronizados, como se a pessoa encarnasse um pai/mãe existente ou punitivo, uma criança zangada, indisciplina ou impulsiva. 

Perceba que a origem dos desequilíbrios psíquicos está fundamentada na crença central, motivada pelos eventos extraordinários que a criança ou adolescente foi submetida. Isso implica que ambientes familiares tensos, interações inadequadas com os cuidadores ou figuras de autoridade, ou a presença de estressores contundentes no ambiente, podem resultar na formação do núcleo patogênico do indivíduo, o seu autoconceito.

Uma vez que o circuito do trauma for compreendido, teremos boas condições de elaborá-lo. Primeiro, será necessário rever os acontecimentos extraordinários, agora com um olhar maduro e compassivo, compreendendo as circunstâncias que os cercam e as necessidades emocionais que não foram atendidas naquele momento. Este processo nos auxilia a identificar e refletir sobre nossos desejos e necessidades, diminuir a nossa dependência das defesas, ter uma percepção mais realista e positiva de nós mesmos e compreender melhor a natureza da realidade.

Conforme mencionado anteriormente, o trauma gera defesas que, apesar de terem uma intenção positiva, podem se tornar incômodas se exageradas. No entanto, ao analisarmos essas defesas, segundo passo, percebemos que, se forem equilibradas, podem se transformar em forças. Por exemplo, uma pessoa que se autossacrifica para ter atenção e afeto pode, ao equilibrar essa defesa, transformar o autossacrifício em amor verdadeiro. Dessa forma, ela se torna agradável e prestativa, sem a cobrança e o desgaste emocional que o autossacrifício pode causar.

Ao trabalhar em duas frentes, a elaboração de eventos traumáticos do passado e o equilíbrio de defesas, poderemos contribuir para uma diminuição das distorções em diferentes níveis: cognitivo, emocional e comportamental.

Ao longo do texto, visei explicar de forma lógica a estrutura do trauma e das defesas. Vimos que traumas e defesas podem ser desafiadores, mas também mostram forças ocultas em nós. A chave está em elaborar as nossas experiências negativas infantis, nos absolvendo da culpa, além de equilibrar as nossas defesas, transformando-as em poderosas ferramentas de crescimento. Tenha em mente que cada obstáculo é uma oportunidade de uma vida examinada e um passo para potência. 

Daltro Feil

Daltro Feil, Psicanalista, Filósofo, com formações em Filosofia Clínica, Terapia do Esquema, Terapia Cognitivo Processual, Terapia Focada na Felicidade e Análise Transacional. Especialização em Teoria Psicanalítica e Psicopedagogia. Autor de cinco livros e diretor do Instituto Psicanálise.

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